
RAÍZEN: R$ 65 BILHÕES EM DÍVIDAS E A MAIOR RECUPERAÇÃO EXTRAJUDICIOAL DA HISTÓRIA DO BRASIL.
O que a crise da gigante do etanol ensina sobre governança contábil, provisionamento e a importância da perícia nas decisões corporativas.
No dia 11 de março de 2026, a Raízen — joint venture formada em 2011 entre a Shell e a Cosan — protocolou na Justiça de São Paulo o maior pedido de recuperação extrajudicial já registrado no país. O valor das dívidas financeiras sujeitas ao plano totaliza R$ 65,1 bilhões, podendo ultrapassar R$ 98 bilhões com os créditos intercompany.
A empresa, que já foi símbolo da bioenergia no Brasil, entrou em espiral de deterioração financeira após uma aposta ambiciosa em etanol de segunda geração (E2G). Os custos de implementação das novas plantas superaram as estimativas, e a conjuntura macroeconômica brasileira — com a Selic em 15% ao ano, a mais elevada em quase duas décadas — transformou uma decisão estratégica agressiva em uma crise de crédito sem precedentes.
É como antecipar uma colheita farta sem olhar para a previsão do tempo: o investimento foi feito, mas as condições externas mudaram antes que o retorno pudesse chegar.
Os números por trás da crise
Em fevereiro de 2026, a Raízen reconheceu uma baixa contábil de US$ 2,1 bilhões, reflexo da deterioração das condições de mercado. A empresa registrava R$ 17,3 bilhões em caixa ao final de dezembro, mas o volume da dívida e os custos financeiros tornaram a situação insustentável sem reestruturação.
O plano apresentado à CVM prevê uma capitalização de R$ 4 bilhões — com R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões de Rubens Ometto como pessoa física. Além disso, a proposta contempla a conversão de até 40% da dívida em participação acionária, o alongamento dos prazos restantes e a possível alienação de ativos não estratégicos. O objetivo declarado é reduzir a alavancagem para abaixo de 3 vezes o EBITDA.
Um dado revelador: a operação de distribuição de combustíveis — o coração do negócio — continua saudável, com crescimento de 2% nos volumes no terceiro trimestre e rede de cerca de 6.500 postos estabilizada. O paradoxo é claro: a empresa tem um problema grave de endividamento e alavancagem, mas sua operação principal segue gerando resultado.
Onde a perícia contábil entra nessa história
Crises como a da Raízen não surgem do dia para a noite. São construídas ao longo de anos, em decisões que se acumulam — e que, sob análise técnica rigorosa, revelam sinais claros de tensão muito antes do colapso formal.
A perícia contábil atua exatamente nesse ponto: onde o critério falhou, onde a projeção se descolou da realidade, onde o provisionamento foi insuficiente.
No universo das empresas que serão impactadas pela crise da Raízen — bancos credores, fornecedores, produtores de cana, acionistas minoritários — a necessidade de análise pericial é imediata e concreta:
- Revisão de provisões (CPC 25): Empresas com exposição financeira à Raízen precisam reclassificar seus passivos contingentes. O que antes era “possível” pode agora ser “provável” — e isso muda a contabilidade, o balanço e a tomada de decisão.
- Quantificação de perdas em títulos de dívida: Detentores de debêntures, CRAs e bonds da Raízen enfrentam renegociação de condições. A perícia é essencial para mensurar o impacto real dessas alterações nos fluxos esperados.
- Análise de viabilidade do plano de recuperação: O plano depende de premissas críticas, como a redução da Selic para 12,25% até o fim de 2026. Cada ponto percentual a mais amplia o custo financeiro. Premissas precisam ser testadas tecnicamente, não apenas projetadas com otimismo.
- Litígios decorrentes: Investidores que tomaram decisões com base em informações financeiras que não refletiam a real situação da companhia podem buscar reparação. A perícia será o pilar técnico dessas ações.
O quadro maior: um alerta para todo o mercado
A Raízen não é um caso isolado. O Brasil registrou em 2025 um número recorde de empresas em recuperação judicial, e a tendência em 2026 é de agravamento. São 8,9 milhões de empresas negativadas em um ambiente de crédito restritivo.
GPA, Unigel, Casas Bahia, Americanas, Agrogalaxy — a lista de grandes corporações que recorreram a mecanismos de reestruturação nos últimos meses é extensa. Cada um desses casos gera ondas de litígios, renegociações e necessidade de revisão contábil.
Para departamentos jurídicos de bancos, varejistas, seguradoras e grandes grupos econômicos, a mensagem é clara: a perícia não pode ser a última peça do tabuleiro. Ela precisa ser a primeira.
Atuar na Fase de Conhecimento, com pareceres técnicos que antecipam cenários e sustentam a defesa desde a contestação, é o que separa uma postura reativa de uma estratégia técnica inteligente. É a diferença entre provisionar no escuro e provisionar com critério.
Perícia não é olhar número. É entender de onde ele veio, por que está ali e se faz sentido.
Conclusão: números precisam de método
A crise da Raízen vai gerar desdobramentos jurídicos, contábeis e financeiros por anos. Credores renegociarão condições, fornecedores buscarão garantias, investidores questionarão projetos. Em cada um desses movimentos, a perícia contábil será chamada a responder a mesma pergunta de sempre: o número se sustenta?
Na Compliance Perícias, nós acreditamos que número sem método não é prova. Provisão não é medo — é critério técnico. E decisões inteligentes exigem precisão.
Se a sua empresa precisa de suporte técnico para revisar provisões, analisar impactos de reestruturações ou fortalecer sua defesa processual com pareceres fundamentados, estamos prontos para conversar.
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